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CAMPOS DE BATALHA E PINTURAS NÃO REALIZADAS PARA LIVROS DE CORES

Por entre cores, texturas e tons. Por entre artistas, conversas, passagens e fazeres. Frantz enfronhou-se no mundo da arte com curiosidade e ânsia de conhecimento. Nunca freqüentou o ambiente acadêmico, mas era assíduo nos espaços e ateliês de artistas. Frantz acreditava que poderia aprender sobre arte vivenciando as experiências e observando os processos de criação dos pintores aos quais bateu à porta: Iberê Camargo, Danúbio Gonçalves, Fernando Baril, Anico Herskovitz, Anna Bella Geiger, Alex Fleming, Daniel Senise, Hudinilson Urbano Júnior, Heli Heil, Gilvan Samico e Marta Loguércio, entre tantos outros.
"Eu perseguia formas inquietantes de construções artísticas. Se algo me interessava, eu buscava sempre conhecer. Eu me interessava também muito pelo material. Eu queria saber preparar tintas" conta Frantz. Nesta procura, Iberê Camargo abriu suas portas a Frantz e o concedeu acesso livre aos seus cadernos e atas de anotações, esboços, rabiscos e estudos de fórmulas de tintas. O contato com Iberê e com as práticas de anotar e de arquivar processos artísticos, segundo Frantz, podem ser vislumbrados como algumas das condutas que levariam o artista a hábitos de colecionar, guardar, acondicionar questões, ações e produtos artísticos em contêineres, em forma de livro de artista ou "não-livro de artista".
Frantz passou a fazer muitos esboços, treinamentos de figura humana, desenhos, anotações sobre seus passeios, fotografias feitas nas ruas. A solução encontrada para aquele sem fim de folhas soltas era sempre a encadernação. Para o artista, estes cadernos que iam se formando eram organizações de seu aprendizado e do que ele absorvia nos ateliês. "Eu produzia meus trabalhos em espaços emprestados e aprendia muito com os artistas que me cediam seus ateliês, materiais, tempo e paciência. Eu perguntava sobre tudo: técnicas, procedimentos, livros. Tudo ia sendo anotado com atenção e estudado", relembra Frantz.
Nesta época, Frantz produziu dez gravuras, que foram impressas por Eduardo Haesbaert e Mario Conceição. Mais uma vez, se sobressai o desejo e a solução artística de "guardar". Frantz construiu uma caixa para acondicionar as gravuras. Mesmo tendo consciência deste tipo de acabamento e de finalização "volumétrica", Frantz afirma que ainda não tinha uma intenção formal de transformação de seus trabalhos em livros. O artista promovia soluções organizadoras que abrigassem suas obras, guiando-se através de idéias de permanência e de durabilidade, contidas álbuns antigos.
O contato com o livro de artista veio através de Paulo Bruscky, em 1985. Para Frantz, o que o interessava eram as tendências estéticas e conceituais desses livros voltadas à ironia, como o "Livro de memórias", do artista Paulo Bruscky, construído com placas de memória de computadores. "Um certo dia, me interessei por álbuns de madeiras, e os comprei em um mercado de pulgas. Eu não sabia bem o que fazer com eles. Eu pensei: de madeira se faz papel. Como eu gosto de pensar na essência das coisas, de onde elas vêm, fiz pasta de papel e compus um "X", que era uma imagem que se repetia muito para mim. A pasta secou, e o "X" passou a ocupar as páginas de madeira. Aquilo se tornou um livro-objeto, quase escultórico, explica o artista.
Durante a década de 1980, Frantz se interessava por quebrar o caráter tradicional do processo pictórico da pintura e transpunha para suas telas expressões gestuais e um tom das linguagens das pichações. O artista apropriava-se de estilhaços de palavras. Assim veio o "X" da palavra "lixo". Frantz incorporou o "X" na sua poética "tanto como sinal de escolha, como de anulação, (...) de tal forma que acabou se transformando em um de seus emblemas. Ele está em diversas de suas pinturas, gravuras, intervenções no espaço público e também na impressionante série produzida a partir dos meados dos anos 1980, no qual o suporte da obra era a própria tinta. Ou seja, tinta sobre tinta", (Paula Ramos, "Aplauso - revista em cultura", ano 9, número 76, 2006, p. 18).
Paralelamente a esse processo, Frantz fazia explodir latas vazias de spray e as transformava em objetos escultóricos. Outro procedimento era a coleção de restos e fragmentos de seus processos artísticos, como pontas de lápis e resto de tintas. Algumas dessas obras processuais ainda estão sendo construídas, como a "coluna de tinta". Todos esses procedimentos apontam para tendências artísticas de projetos poéticos do artista, que buscavam discutir a pintura.
Na década de 1990, Frantz foi para Alemanha. Neste momento, o artista buscava novas tonalidades e exercitava sua maestria técnica produzindo tintas. Durante o período da bolsa de estudos, o artista teve ao seu dispor um "apartamento-ateliê" e devia entregá-lo da mesma forma que o recebeu: limpo. Assim, Frantz cobriu paredes, teto e piso e pôs-se a trabalhar.
Quando Frantz desmontou as instalações de seu ateliê, viu que poderia guardar as folhas de papel que forravam o espaço. Os resquícios e manchas de tinta que respingaram nos papéis eram pura obra do acaso e não passavam de registros das atividades de pintura, de testes e experimentações do artista. Para Frantz, as reflexões sobre essa experiência são decisivas para sua trajetória artística. "O desmonte do meu ateliê na Alemanha foi muito forte, mas eu não sabia até então o que fazer. Eu guardei tudo. Pensando em tudo isso, agora me vem uma ligação de desmonte como o próprio muro de Berlin que vi em pé [em 1988]e caído [em 1990]. Vi as partes do muro sendo vendidas, como lembranças", explica o artista.
De volta ao Brasil, Frantz costurou as folhas e as guardou como uma memória de seu ateliê, na Alemanha. O hábito de forrar os ateliês, onde pintava, prosseguiu. Depois de coberto, o ateliê seguia com suas atividades normais. Para o artista, seu grande foco sempre foi e ainda é a pintura. "Eu nunca acreditei na pintura como algo divino", explica Frantz. O artista se interessa por digressões, subversões e pelas raízes conceituais que envolvem o ato e os procedimentos de pintar.
Essas discussões e reflexões sobre a pintura aliadas à necessidade de preservar o seu ateliê fizeram Frantz deparar-se com pinturas ao seu redor. Um profundo e denso lago de pinturas sem intenções e povoado de restos de tintas, detritos, excessos, descartes de tons. Frantz estava frente a frente com um abismo de possibilidades de cores, de camadas, de pinceladas, que escaparam ou que foram descartadas. Mesmo carregado de tempo e duração, para Frantz, o processo de "produção" deste todo ainda único não importa conceitualmente, mas sim, como viabilizador de uma textura do acaso a se projetar como opções para edições.
Deste lago imaculado remexido por cores, que é a tela usada para proteger o espaço, o que escapa de seus processos no ateliê são ruminações de "telas de pintura". Seleções quase obscuras pairam até que Frantz defina que o material está pronto para ser retirado e recortado. A relação do artista com o ateliê envolve uma espera por marcas de processo, que podem durar anos. O artista passou a não pintar, mas a recolher os dejetos de outros pintores em seus próprios ateliês ou dos processos de outros pintores participantes das aulas ministradas no ateliê de Frantz, e os transformar em pinturas contextualizadas em enquadramentos.
São processos transformados em pintura pelo exercício do "olhar" de Frantz.
O método de Frantz rejeita os cânones clássicos da arte e da pintura e se estabelece em apropriações, eleições de impregnações e organização plástica, com intenções que priorizam a visualidade. O uso da grande tela provavelmente constituirá não só descartes, mas brechas e apelos visuais sedimentados pelas tintas usadas por outros pintores, além de uma importantíssima questão para o artista e que percorre toda a sua expressão artística: "Tem tela, tem tinta, tem composição, tem correção, tem camadas. Só não foi executada com a intenção de pintura. Então, é pintura ou não é?".
O que sobrava das "telas" de Frantz era organizado e dobrado em formato de páginas de livros, mas o artista ainda não tinha se atentado para este detalhe. O artista passou a pensar em outras possibilidades de "emoldurar" suas telas e uniu esse desejo aos seus processos de "acondicionar". Disso, o artista passa a enquadrar pedaços das lonas de telas e os "arrematar" em formato de livros. "Tudo que sempre foi obra do acaso, eu passei a ver como projeto. Eu uno a ação de cobrir os ateliês às minhas necessidades de guardar, e guardo em livros, ao mesmo tempo em que reconstruo ateliês nesse ato de guardar e de escolher pelo olhar. Mesmo assim, a grande questão não é o livro, mas a pintura", segundo Frantz.
Essas edições do material são observadas, escolhidas, delimitadas, retalhadas e vincadas, quando apontam visualidades interessantes para o artista. O material é dividido em composições, através de escolhas de tamanhos e obedecendo a uma narrativa ou seqüencialidade plásticas. Neste processo seletivo, há uma procura empenhada em indicar demarcações visuais aproveitáveis e atraentes ao olhar do artista.
Nada a fará ser como antes, a grande tela fluída e sem demarcações é visualizada por Frantz com freios e avanços seletivos de seu olhar e é despedaçada em unidades de livros, ou seja, em páginas. Os abismos de tinta transformam-se em páginas. Frantz estabelece o tamanho e a ordem das páginas e as entrega ao encadernador.
A capa de todos os livros de Frantz tem sempre a mesma cor e é coberta com o mesmo material: tela virgem. Todos os livros também apresentam a mesma encadernação costurada e o mesmo lombo simples, sem qualquer indicação ou título. Há também "respiros" e intervalos plásticos entre as páginas previstos na composição dos livros de artista de Frantz.
Vale salientar que a escolha pela forma e pelo volume do livro não representa uma espécie de "consolo" para o material coletado, mas uma verdadeira composição com linguagem e conceito muito próprios e muito visíveis em cada um dos livros de artista de Frantz. Isto se dá, principalmente, pela escolha do material que será recortado.
Frantz se apodera das lonas de telas que cobrem o ateliê de outros artistas e de toda e qualquer espécie de resquício deixado, desde que seja visualmente interessante ao seu olhar. "Eu me interesso pela polêmica que o material resultante de todo o processo de pintura pode providenciar, como questões de autoria e de validade conceitual do que é e do que não é pintura", explica o artista. Além dessas desestabilizações artísticas, Frantz opera a partir de suas "pinturas não realizadas", narrativas plásticas, sendo estas seqüenciais ou não, em seus livros de artista.
O livro para Frantz é o contêiner de todas as cores e materialidades vivenciadas no processo de pintura, e ao mesmo tempo, inquietações sobre a pintura. São livros de autoria compartilhada e/ou apropriada. Os livros de artista de Frantz são "livros de(o) olhar".
Galciani Neves
Data: 30/10/2008
Fonte: Dissertação de mestrado
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