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Dione Veiga Vieira |
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Dione Veiga Vieira em conferências no Chile
"A projeção do Corpo no Contexto da obra - uma reflexão a partir da instalação 'A Casa é o Corpo' de Lygia Clark " foi o título da conferência ministrada pela artista plástica Dione Veiga Vieira no mês passado, em duas universidades do Chile: na UFT - Universidade Finis Terrae, na cidade de Santiago do Chile - com o convite e mediação de Sergio González Valenzuela; e na UVM - Universidade de Viña Del Mar, com o convite de Ismael Frigerio, artista chileno, professor e chefe do Curso de Artes Visuais dessa mesma Universidade.
Tal reflexão - que inicialmente partiu da poética que a artista vem desenvolvendo em seu próprio trabalho - já moveu, além da realização dessas recentes palestras, a curadoria de duas mostras coletivas ocorridas durante esse ano, em Porto Alegre: "Casa Fechada" (CCMQ) e "Casa/Corpo" (Galeria do DMAE), ambas com os artistas Marcelo Gobatto, Luciano Zanette, Gabriela Picoli, Klinger Carvalho, Munir Klamt e Laura Cattani.

Dione Veiga Vieira, 2008
foto: Fábio Del Re
Nas duas universidades chilenas, a palestra de Dione Veiga foi seguida da apresentação de sua obra com a análise de Sergio González Valenzuela, professor e curador chileno que recentemente escreveu sobre a instalação 'A Liquefação e a Decantação' (texto abaixo) - exposição apresentada na Galeria Gestual, em setembro passado.
O Laboratório Poético de Dione
(um texto transcordilheirano)
"um olhar desde o mais alto
pode ser uma visão do mundo
a rebelião consiste em observar
uma rosa até os olhos se pulverizarem"
Alejandra Pizarnik
A obra de Dione Veiga Vieira é um constante ir e vir de imagens, onde se tensionam elementos poéticos, objetuais e fotográficos (os quais indicam um claro exemplo da versatilidade de sua obra artística, ou como ela denomina "hibridismo da contemporaneidade"1, e onde as possibilidades de leitura estão estabelecidas a partir de diversos tropos literários, e sem dúvida esses apontam para uma idéia de "opera aperta").
Várias de suas obras parecem articular-se a partir de "ready-mades" retificados ou assemblages, e sua funcionalidade estaria dada por um processo físico-alquímico (desenvolvido em seu "laboratório poético", tal como assinala a artista), e onde um dos seus eixos transversais seriam certos vestígios que denotam uma "raepresentatio in absentia". Vale dizer, uma metáfora por meio da qual se alude a um corpo ausente, e que, portanto, só pode ser representado. O contrário disso é o happening, realizado essencialmente pela body-art e pela performance, onde o artista recorre ao seu próprio corpo como suporte material da obra de arte.
É precisamente a diversidade de materiais - além do interessante contraste entre texturas, e sua relação com os objetos -, um dos principais interesses de Dione Veiga Vieira, inclusive porque como ela mesma assegura: "a matéria é minha metáfora preferida para refletir sobre a vida e a arte"2. Junto com isso, o principal em sua produção artística é o fato de estabelecer uma dinâmica de poéticas visuais em que se fundem os elementos plásticos e conceituais, onde a decodificação da obra radica numa leitura comprometida por parte do espectador (Octavio Paz referia que era responsabilidade do espectador transformar-se em artista, assim como o leitor em poeta3...). Deste modo, se alcança outro significado para a função do artista4, mais além do seu compromisso social, ou então, da noção mesma do espetáculo.
"É a brancura uma metáfora da decantação da matéria? É o branco delicado, fino e um sutil véu, como uma metáfora das coisas evanescentes e vaporosas? Ou então, das coisas que se evaporam em um mundo material? Evaporar = Desaparecer"5. Junto às sutilezas materiais, cromáticas e semânticas, a artista nos refere a dimensão evanescente da modernidade anunciada por Marx: "Tudo que é sólido se desmancha no ar...", e onde o permanente, o museográfico se tornam obsoletos6. Algo que se opõe à materialidade e ao simbolismo do ovo, enquanto substância primigênia, receptáculo da vida; e que também assume as características da segurança uterina, ou da proteção da casa (Humberto Giannini fala do "retorno ad ovo", como essa instância diária na qual a pessoa regressa ao seu ponto de origem, que é seu próprio lar, onde encontra calidez e refúgio7).
É talvez o mesmo uso dos véus, uma parte fundamental dessa estratégia visual de mostrar-ocultando, outra das sutilezas da artista que aponta para uma leitura aberta (e sem dúvida, poética) de suas obras, onde secretamente se faz alusão a uma noção de transformação, de movimento imperceptível e de desaparição da matéria8. O que de algum modo estaria presente na deformação dos vasos, onde o movimento não seria aparente, senão um vestígio na materialidade mesma do objeto9. Imagens equívocas, remotamente futuristas, e que fazem evidente a marca do acaso, o acidental em sua manufatura... Disso e muito mais nos fala Dione: de um maravilhoso mundo de possibilidades onde a poesia apesar de tudo, segue oferecendo-nos signos de sobrevivência.
*Sergio González Valenzuela
Santiago de Chile,
Agosto de 2008.
Notas
1. Dione Veiga Vieira em e-mail ao autor deste texto.
2. D. V. V. em e-mail ao autor do texto.
3. Octavio Paz em Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza, Editora Perspectiva, São Paulo, 2004.
4. "Concordo inteiramente com a definição de 'artista' como aquele que 'se busca e se volta para dentro' em contrapartida ao 'ativista' que está envolvido 'com o amor ao próximo'...". Dione Veiga Vieira em e-mail ao autor deste texto, e a propósito da obra da artista Regina Galindo (http://lacosastessa.blogspot.com/2008/08/arte-sangre-sudor-y-lagrimas.html).
5. D. V. V., op. cit. A artista acrescenta: "A arte também é um processo de depuração/decantação". Isto é, a leitura e decodificação da obra de arte não é instantânea, antes pelo contrário, requer por parte do espectador um processo lento de assimilação.
6. Aqui a referência fundamental é o livro homônimo de Marshall Berman, do mesmo modo que a crítica explícita ao colecionismo e ao conceito de museu exposto por Flaubert em sua obra inacabada "Bouvard et Pécuchet" (1881).
7. Humberto Giannini em "La reflexión cotidiana: hacia una arqueologia de la experiencia", Editorial Universitaria, Santiago de Chile, 1987.
8. "A idéia da transformação da matéria está ligada/entranhada à idéia da transitoriedade do corpo e portanto, de seu desaparecimento...". D. V. V., op. cit. Onde o piscar de olhos a Lavoisier é mais poético que químico, e portanto, mais conceitual que empírico.
9. "As deformações são as diferenças dos corpos, que em suas aparentes semelhanças - e dentro de um conjunto aparentemente homogêneo -, os corpos sustentam suas particularidades específicas". D. V. V. op. cit. Neste sentido, a "diferença" presente nos objetos tem um alcance derridiano e benjaminiano, especialmente no tocante ao valor aurático da obra de arte única e irreproduzível, que neste caso paradoxalmente está dado pelo ensaio-erro da manufatura industrial.
*Sergio González Valenzuela é curador e professor da UFT - Universidade Finis Terrae, Santiago do Chile.
(Texto publicado originalmente em castelhano, no folder da exposição 'A Liquefação e a Decantação', Galeria Gestual, e na Revista SIBILA - revista eletrônica de Poesia e Cultura, em setembro/2008. Versão para o português de Ronald Augusto).
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