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Lia Freitas
A invenção de uma memória da forma

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Hoje, não fugiria a verdade a afirmação de Flávio de Carvalho de que “o corpo continua sendo a parte do mundo que mais interessa ao homem”. Assim, se o corpo na vida e na arte contemporânea passa a ser, ou volta a ser, o suporte de manifestações simbólicas e estéticas, é nas representações do corpo que Lia Freitas irá narrar e refletir sobre acontecimentos essencialmente humanos.

Na série máscaras do corpo, Lia insere telas metálicas na argila, ou mais especificamente, no paper clay, mistura de argila com papel. As figuras femininas denotam vaidade e deformadas dentro de espartilhos metálicos, mostram volumes, dobras, sobras de pele. Excessos da carne naturalmente oriundos da própria trajetória de vida. Excessos de carne que muitas vezes buscam rendição nas técnicas contemporâneas de conservação do corpo. Cirúrgica e exageradamente transformados, plastificados, mutilados ou simplesmente estereotipados, estes corpos são incapazes de apreender a experiência de transitoriedade humana. Passam a funcionar como receptáculos de memórias deformadas pelo tempo, tênues vestígios de uma juventude obnubilada.

Dos espartilhos Lia parte para a forma geodésica: uma esfera dividida em triângulos. As formas geodésicas são encontradas nas milhares de bolhas num pouco de espuma ou nos ninhos de alguns pássaros; nas habitações pré-históricas em algumas ocas indígenas ainda existentes ou ainda nos domos arquitetônicos. Modernamente, o primeiro domo arquitetônico foi construído em Jena, Alemanha, em 1922. Era uma cúpula de ferro e cimento. Lia substitui o cimento pelo paper clay queimando tudo a 1000°C. As geodésicas de Lia podem ser catedrais, templos de adoração do corpo, com suas cúpulas que mimetizam a abóbada celeste, vitrais em mosaico que filtram a luz, abscissas e ordenadas que compõem o invisível de cada prece em ascensão. Podem ser grades que aprisionam lembranças de um corpo que busca transcendência na concretude da matéria.

Nos potes - e por que não pottery?, Lia prossegue sua pesquisa: o paper clay permite a construção de corpos cerâmicos com a assemblage de corpos estranhos. Cortes, fraturas, junções, inserções de materiais como metais ou cacos crus e cozidos no corpo cerâmico, testam os limites da complacência da matéria. A plasticidade do paper clay resiste bem a grandes tensões e, metaforicamente a artista transpõe esta idéia para o corpo.

Na obra talvez o corpo seja a própria essência, estamos diante não da mímesis, conceito do duplo idêntico da vida criticado por Platão na arte grega, mas de uma técnica de impressão que permite a conservação da forma e da contra-forma de objetos singulares. Como objetos singulares, Lia escolheu pequenas laranjas já murchas, desidratadas pelo tempo, que são banhadas numa mistura embalsamadora de paper clay e pasta egípcia. Três ou quatros banhos são suficientes para a mumificação do corpo que encarna a densidade da memória da forma. No processo de contra-forma, Lia eviscera as laranjinhas e preenche o espaço vazio com a mesma mistura: os detalhes da parte interna são retidos na argila. Esta contra-forma nada mais é que o negativo da forma.

A impressão é um gesto técnico imemorável na civilização humana, embora a História da Arte tenha valorizado o gesto único até o século XX, quando as impressões produzidas pelos artistas frustam as idéias tradicionais de autoria e de originalidade. Lia Freitas contrapondo a experiência relacionada ao efêmero e a impossibilidade de permanência do corpo, inventa uma memória da forma através da impressão e contribui nas investigações de processos que envolvem a cerâmica e a gravura.

Ana Flores
artista plástica
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A artista Lia Gomes de Freitas nasceu em Porto Alegre, em 1948. Tem pós-graduação e é licenciada como Professora de Desenho pelo Instituto de Artes da UFRGS. Por quatro anos, estudou desenho com Paulo Porcella e também foi aluna de Paulo Peres, Danúbio Gonçalves e Maria Anita Tollens Link. De 68 a 94, freqüentou o Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre e desde 82, freqüenta o atelier de cerâmica da professora Carla Licht. Em 95 participou do Curso de Escultura e Cerâmica na Escola de Artes Visuais do Parque Lages, Rio de Janeiro, tendo Angel Garraza como professor. De1999 a 2004, fez o curso de Extensão Universitária, Pesquisa em Cerâmica coordenada por Katsuko Nakano no Departamento de Artes Visuais da UFRGS. De 2004 até 2006 participou do grupo de pesquisa em cerâmica, coordenado pela professora Ana flores no Instituto de Artes. Já participou de inúmeras exposições coletivas em galerias de arte e de mostras de decoração. Em 99, criou o Espaço de Arte Terracota, aonde vem desenvolvendo seus trabalhos e técnicas e onde ensina a arte da cerâmica.

2008 Máscaras do Corpo, galeria de Marte, Porto Alegre-exposição individual
2008 Galeria Municipal de Arte Gerd Borhnheim,Caxias do Sul
2007 25x25 Bolsa de Arte, Porto Alegre
2007 Mostra de Natal-Galeria modernidade, Novo Hamburgo
2007 Essa POA é boa, projeto coletivo de artistas para homenagear Porto Alegre.
2007 III salão Internacional Del MOSAICO CONTEMPORÁNEO MUSEO INTERNACIONAL DE CERÁMICA CONTEMPORÁNEA - BUENOS AIRES
2006 III Salão de Mini Cerâmica, Galeria Marisa Soilbeman,Porto Alegre.
2006 X Panorâmica de Cerâmica, Centro Municipal de Cultura, Arte e Lazer Lupicínio Rodrigues, Porto Alegre.
2005 XV Salão de Cerâmica, Museu de Artes do Rio Grande do Sul.
2005 O Pote Leitura e Releitura da Cerâmica indígena na América Latina Museu Joaquim Felizardo, Porto Alegre
2005 Cerâmica, Espaço Koralle, Porto Alegre
2005 Varal das Artes, Galeria Modernidade - Novo Hamburgo
2004 XV Salão de Cerâmica – Museu de Arte do RS
2004 16º Salão de artes plásticas - Câmara Municipal de Porto Alegre.
2004 O Pote, galeria Xico Stockinger da casa de Cultura Mario Quintana.
2004 II Salão DE MINI CERÃMICA, Museu de Arte do RS, - MENÇÃO HONROSA
2004 MARIANITA NO ENSINO DE MUITOS CAMINHOS
2004 Gomboc Gallery, MiddlSwan,Western Australia.
2003 XV Exposição de Artes Sociedade Germânia, Cerâmica Papier Maché Têxteis Meta, Porto Alegre.
2003 XI Panorâmica 2003 da ACERGS, Casa de Cultura Mario Quintana, MAC ,Porto Alegre.
2003 Matéria em Trân.si.to realizada na Galeria Gravura, Porto Alegre.
2003 Internacional Miniart Exchangue realizada no Centro Cultural Usina do Gasômetro Porto Alegre-RS.
2003 Esquinas e vizinhanças realizada no Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, Porto Alegre.
2003 Mostra Nacional ZH Gastronomia realizada no Shopping Iguatemiporto Alegre.
2001 Mostra Estar Arquitetura e Decoração, realizada no Shopping DC Navegantes, Porto alegre.
2001 Arte em Cerâmica, realizada na Sociedade Germânia, Porto Alegre.
2000 Exposição de Cerâmica, realizada no Centro de Desenvolvimento e Expressão, Porto Alegre.
2000 Exposição na VII Panorâmica da Associação dos Ceramistas do RS, realizada no Saguão do Plenarinho da Câmara Municipal de Porto Alegre.
2000 Exposição O POTE, organizada pela Associação dos Ceramistas do RS, realizada Espaço de Arte FIERGS, Porto Alegre.
1996 Exposição O POTE, organizada pela Associação dos Ceramistas do RS, realizada na Galeria do Centro Cultural Prof. Klinger Filho.
1994 Mostra Colégio Aplicação 40 anos, UFRGS.
1992 Exposição Arte na Medicina II, promovida pelo XV Congresso Brasileiro de Neurologia, realizada na Casa de Cultura Mario Quintana.
1991 Exposição na IV Panorâmica da Associação dos Ceramistas do RS, realizada no Museu de Porto Alegre.
1991 Cerâmica Urgente, organizada pela Associação dos Ceramistas do RS, realizada na galeria de arte do Clube Comércio.
1990 Exposição no XXVII Congresso Brasileiro de Pediatria Cruz vermelha Brasileira.
1989 Participação na Terceira Panorâmica da Associação do RS, realizada no Centro Municipal da Cultura.
1988 Mostra coletiva do Acervo da Companhia de Arte – Ijuí/RS.
1988 XII Coletânea de Arte de Professores, organizada pela I Delegacia de Educação/Secretaria de Educação e Cerâmica Pesquisa & Expressão, organizada pelo Instituto de Artes/Departamento de Artes Visuais/UFRGS.
1986 I Semana de Arte da Cidade de Porto Alegre promovida pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre-Artistas Selecionada.
1985 X Coletânea de Artes de Professores, organizada pela I Delegacia de Educação/SEC.
1984 IX Coletânea de Artes de Professores, organizada pela Delegacia Cultura do Estado.
1986 de Educação/SEC. Menção Honrosa.
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