|
|
|
|
|
Frantz |
|
|
| De refugos, olhar e pintura |
|
|
|
 Clique na imagem para ver a Galeria
De refugos, olhar e pintura.
Quando se entra no ateliê de Frantz, ele logo comenta, apontando para o piso: “Isso é uma pintura”. A primeira e genuína sensação é de estranhamento e de perplexidade; afinal, está-se caminhando sobre uma obra de arte. Olhando meio debochado, ele completa: “Eu não acredito nessa coisa da pintura como algo divino”. No piso propriamente dito, estende-se, tal como um forro, uma ou várias telas; esse revestimento também pode ser feito a partir de papéis unidos de maneira estruturada, quase cartesiana, por uma fita adesiva. O sentido dessa cobertura é, em tese, proteger o chão dos respingos de tinta, dos resíduos do processo de pintar. Nesse mesmo ateliê, passam semanalmente vários alunos de Frantz, e ali, naquela superfície estendida, vão-se então acumulando tintas, pegadas, tocos de cigarro, sinais de cavaletes, de latas, camadas e camadas, dezenas delas, de restos. Todos materiais mortos, o que constituiria o lixo do ateliê. Cobrindo as paredes há outros painéis, com sedimentos semelhantes, acrescidos, no entanto, de marcas geralmente retangulares, indicando os limites dos chassis.
Esses resquícios, que há meses se acumulam na extensão quer do papel, quer da tela, manchando-a e marcando-a, são elementos do acaso. Eles não foram pensados e nem estudados. A quase que totalidade deles, inclusive, nem de Frantz são, mas de seus alunos. Movido por uma hesitação legítima, você então poderá se questionar: “Mas, se ele não fez essas pinturas, por que elas levam o seu nome?”.
O exercício a que Frantz se propõe reside no olhar. Seu gesto é o de olhar e eleger. No caso das imagens em tecido, é ele quem estabelece o isolamento, a composição. Só depois é que a tela é cortada e fixada ao bastidor. Está aí a sua assinatura. Já nas imagens sobre papel não há escolha: os módulos são apresentados em sua completude. Em ambos os suportes, os trabalhos exibem os embates e parte do processo de criação, constituindo dimensões que Frantz costuma chamar de campo de batalha. E o artista novamente nos provoca: “Pintura não é superfície e cor?” Sim, para Frantz, pintura é superfície e cor, mas que emociona. Andando pelo ateliê, ele vai apontando futuras pinturas, espaços de sedimentação e de construção em que percebe reflexões não apenas sobre a passagem do tempo e suas máculas, mas, notadamente, sobre a própria essência da pintura e sobre o sentimento que singelas e fortuitas manchas de tinta e de pigmentos diversos podem nos provocar. Tudo, ali, naquele laboratório, sendo-lhe dado o tempo necessário, é passível de ser visto como pintura. Daí a sua vastíssima produção, recolhendo e elegendo esses refugos, dando-lhes outros significados. Nesses dejetos em que a maioria das pessoas vê unicamente lixo, Frantz percebe beleza. E então cria livros, caixas de vidro com sobras de tintas, formas escultóricas estabelecidas a partir dessas mesmas sobras. Tudo resultado dos vestígios de outros trabalhos, de outras pessoas. Ele confessa que nunca sabe se vai funcionar, mas faz, e faz porque gosta, regido pelo desejo, não pelo mercado. Nunca pelo mercado. Daí também as exposições bissextas.
O conjunto de obras aqui apresentado traz um recorte desse universo de Frantz, com alguns fragmentos de paredes e de pisos. Pinturas articuladas a partir de materiais moribundos nos quais o artista, com seu olhar amoroso, insufla vida. Se essas imagens conseguirem provocar o espectador, incomodá-lo e motivar uma reflexão sobre as convicções e dúvidas em torno do que se considera pintura, estarão cumprindo o seu desígnio. Afinal, uma das virtudes da arte contemporânea é a desestabilização de nossos amortecidos sentidos e de nossas frágeis certezas.
Paula Ramos
Jornalista e Doutoranda em História, Teoria e Crítica de Arte/UFRGS.
|
|
|
|
|
|
|
|
|